quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tradições do Soito

A propósito das comemorações dos 80 do regionalismo goiense, que tiveram lugar em Janeiro de 2009, escrevi alguns textos sobre tradições da aldeia do Soito que, na sua maioria, correspondem ao que se passava nas restantes aldeias da Freguesia.


Não obstante os mesmos já terem sido publicados em 2009 no Blog da União Progressiva da Freguesia do Colmeal (http://upfc-colmeal-gois.blogspot.com), irei efectuar de nova a sua publicação neste BLOG, ao mesmo tempo que, logo que possível, penso escrever sobre o que ainda me lembro de outras tradições.

A gestão das águas comunitárias da aldeia


O Soito sempre foi uma terra abundante em água, porque é uma das aldeias mais baixas da Freguesia, aproveitando assim do rio e das ribeiras para regar as suas terras, algumas das quais designadas de lameiros pelo facto de entre o Inverno e a Primavera serem irrigadas de forma permanente, a fim de produzir a erva para os animais, cujo último corte era destinado ao feno (erva seca), guardada nos palheiros, para consumo sobretudo nos dias mais invernosos em que o gado não saía dos currais.

Apesar disso, as terras mais junto da aldeia, onde se cultivavam sobretudo as hortas, disputavam uma quantidade nem sempre abundante de água, que era / é captada na “ribeira”, no desembocar das águas do Ribeiro de Além e da Quinta das Águias. Aí havia 3 poços (actualmente em ruínas) que, após estarem cheios (uma a duas vezes ao dia, dependendo da quantidade de água), eram abertos, sendo a sua água transportada até ao Soito, por uma levada de cerca de 2 km (hoje substituída por um tubo).

A água destes poços, que demoravam cerca de 2 horas a serem esvaziados, uma vez chegada ao Soito pela dita levada (alguma perdia-se no caminho), era depositada num poço de terra e pedras de grande dimensão situado no cimo da aldeia, hoje substituído por um tanque de cimento.

A distribuição da água era feita segundo escritos antigos, ainda hoje existentes, com base na dimensão de cada um dos terrenos de cultivo que a ela tinham direito, mas como acontecia em muitas outras terras do país, originava por vezes algumas discórdias, dado que algumas pessoas menos conscientes abusavam da sua utilização esquecendo os direitos dos outros.

A fim de resolver as “guerras da água”, os antigos habitantes resolveram então colectivamente instituir a figura do “juiz da água”, que era um homem designado por todos os agricultores para controlar a utilização da água por cada uma das propriedades, de acordo com o tempo a que tinham direito.

Este juiz, que eram pago em géneros agrícolas pelos diversos proprietários, tinha como função abrir o poço da aldeia e encaminhar água pelas levadas em direcção às terras que naquele dia iria ser regadas, chegada a água ali, virava o “tornadoiro ” e controlava o tempo de rega, cortando a água em direcção a outro destino, quando este terminava, ainda que o terreno não tivesse sido todo regado. Era necessário cumprir a “lei” e o juiz era implacável.

Os seus instrumentos eram o relógio para controlar o tempo de rega e um pequeno sacho para levar a água para o percurso desejado e também para desobstruir as levadas e os rêgos.

O último juiz da água do Soito, que exerceu a sua função até cerca de 1970, foi o ti António da Neves, mais conhecido por ti António do Balcão (dado que a sua casa, à entrada da chamada “rua da carvalha”, tinha um pequeno balcão e um alpendre). Era natural de Aldeia Velha e casou no Soito e o seu sacho ( a sua ferramenta de juiz da água) é uma das peças que integram o acervo do “Espaço Museológico do Soito”.

António Duarte

quarta-feira, 28 de abril de 2010

O início da CM de Melhoramentos do Soito

É através desta “carta aberta” publicada em 1953 na Comarca de Arganil, que a designada Pró -Comissão de Melhoramentos do Soito, constituída homens da nossa terra residentes em Lisboa, anuncia a criação da futura Comissão de Melhoramentos do Soito, cuja constituição formal viria a ter lugar em 12 de Outubro de 1954, fazendo este ano 56 anos.




“Carta aberta aos naturais de Soito do Colmeal



Caros conterrâneos: - Só um assunto muito importante nos levaria a tomar o precioso espaço do prestimoso jornal que é A Comarca de Arganil. Mas, em face da dispersão da família soitense, é este ainda o melhor meio de rapidamente comunicarmos com todas.

Muitas vezes tereis lamentado o desinteresse que a mocidade da nossa terra parece mostrar por tudo o que seja progresso, quando outros, em menor número e com menos possibilidades, têm feito tanto em prol das suas.

Tem contribuído para essa falta de interesse não só a saída de algumas famílias, como, e principalmente, a saída dos jovens assim que terminam a instrução primária, que passando a viver num mundo diferente, depressa perdem o amor que tinham à terra, não o conseguindo manter as visitas periódicas que lhe fazem, pois o abandono progressivo, aliado à mais completa ausência de condições de vida, para isso contribui.

Tentando modificar este estado de coisas, e animados pelo belo exemplo de outras colectividades, é com prazer que comunicamos estar em organização, em Lisboa, uma Comissão de Melhoramentos, que será mais uma a juntar a tantas outras da nossa região, mas que, para nós, soitenses, representará não só a união de ausentes e residentes na terra, como a possibilidade de tornar esta mais progressiva e, se possível, mais linda.

Contamos já com a valiosa e espontânea adesão de muitos conterrâneos e amigos, estando marcada uma reunião em casa dos nossos conterrâneos Srs. Ernesto e Urbano Marques – Rua Barão de Sabrosa, 174–A para o próximo domingo, dia 7, às 14 horas, para aprovação de estatutos, contando-se com a presença de todos e a inscrição daqueles que ainda não o fizeram. – A Pró-Comissão de Melhoramentos do Soito.”



Publicada na Comarca de Arganil em 1953 (não é visível a data exacta)

Nota de abertura

Pretende-se com este BLOG dar a conhecer alguns aspectos da aldeia do Soito, que desde há algum tempo tem investido na recuperação do património tradicional, sendo uma das aldeias da nossa zona que apresenta um significativo potencial atractivo, com vários pontos de interesse a visitar de que se destacam a capela de São Pedro que segundo a tradição oral remonta ao século XVI, o espaço museológico do Soito, a fonte-velha, o moinho a água existente no interior da aldeia, a Eira recentemente recuperada para espaço de lazer, bem como inúmeros recantos e percursos em direcção à serra, à ribeira e ao rio.


De referir ainda, que durante o ano de 2010 e 2011, o aspecto da aldeia será ainda significativamente melhorado, através de um programa designado de “valorização do espaço público do Soito, cujo projecto já se encontra na CM de Góis para aprovação e cuja divulgação mais por menorizada se fará oportunamente.

António Duarte