sábado, 29 de maio de 2010

Tradições do Soito - O fabrico da farinha de milho e centeio

No perímetro do Soito havia vários moinhos para moer os cereais de várias aldeias, sendo 2 no Rio Ceira (moinho do Cabeceiro, exclusivo do Soito e do Boiço, que também era utilizado por pessoas de Carrimá, Malhada, Loural e Aldeia velha), 3 na Ribeira do Soito (Ribeiro, Pedrancha e Foz do Corgo) e ainda um dentro da aldeia que moía quando se abria o poço da rega (moinho do Curtinhal, que actualmente integra o património museológico da aldeia).
Estes moinhos, todos movidos a água, implicavam a manutenção de açudes e levadas para que a água chegasse em quantidade suficiente. Chegada junto ao moinho, a água era projectada a uma altitude adequada e declive adequados, através de uma caleira em madeira (feita por escavação com uma enchó num tronco de pinheiro), a fim de que o rodízio, situado na parte inferior do moinho, se movesse, fazendo assim girar a mó.
O moinho é composto por duas mós, uma móvel acoplada ao rodízio e uma fixa sobre a qual a primeira se move a fim de fazer a farinha, quanto maior for a distância entre as mós, mais grossa será a farinha e vice-versa. Esta distância ajusta-se através de dispositivo próprio chamado pau da cruz, conforme o tipo de cereal a moer e a espessura que se pretenda.
Para além das mós e do rodízio, o moinho tem ainda o reservatório onde se coloca o cereal, em forma de funil rectangular (moega), uma espécie de caleira por onde o cereal se dirige para o buraco central da mó móvel em direcção ao espaço entre as duas mós (a quelha), mediante a turbulência provocada por uma pequena roda de cortiça (cadelo) que vai saltitando sobre aquela mó.
A generalidade destes moinhos eram colectivos, com maior expressão dos que se situavam no rio que eram praticamente de todos os habitantes da aldeia (s), que conforme as posses e as necessidades, tinham direito a moer por um determinado número de horas por semana.
Sobretudo no Verão e nos anos de maior seca, apenas os moinhos do rio tinham água suficiente para moer, o que originava que estes não tivessem mãos a medir, trabalhando de forma contínua, pelo que todas as famílias tinham de aproveitar as horas a que tinham direito, mesmo que o seu período de utilização se iniciasse durante a noite, o que acontecia com frequência.
Assim, eram frequentes as deslocações ao moinho em noites escuras e por vezes frias, carregando, às costas, pesados sacos de cereal ou farinha, com uma lanterna de azeite na mão, a fim de alumiar os tortuosos e inclinados caminho. Era frequente a lanterna apagar-se devido ao vento, deixando as pessoas completamente às escuras e com dificuldade em a reacender de novo. Eram tempos difíceis, que apesar de tudo sabe bem recordar.
Por vezes acontecia que o moinho de “alodava”, eventualmente devido aos cereais não estarem suficientemente secos ou pelo inadequado ajustamento das mós, o que atrofiava a moagem e originava do desperdício dos respectivos cereais. Esta era uma situação que gerava o desespero das pessoas afectadas, quer pelos estragos causados, quer pelo facto de não terem obtido a farinha que necessitavam.
Era habitual as crianças a partir dos 6 anos acompanharem o pai ou a mãe, a fim de lhe fazer companhia nestas viagens nocturnas, segurando a lanterna e ajudando a dissipar os medos do desconhecido (lobisomens, bruxas e almas penadas que pairavam sobre aqueles caminhos escuros e íngremes).
Também aqui se verificava o espírito de entre ajuda das pessoas na aldeia, uma vez que era frequente as pessoas que iam buscar a farinha, findo o seu tempo de moagem, levarem o grão dos vizinhos que iriam utilizar as horas seguintes e vice-versa. Era também uma forma de minimizar o esforço de que todos beneficiavam.
Para além da farinha para a broa, de milho (em maior quantidade) e de centeio (em menor quantidade), fazia-se uma moagem específica a fim de obter os “carolos”, uma farinha de milho mais grossa, típica da zona, que eram cozida em água, a fim de fazer acompanhamento (de carne, sardinhas, etc) e da qual também se faziam uma espécie de papas doces.

António Duarte

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Património preservado

Capela de São Pedro





É talvez um dos sítios mais míticos do Soito, sendo, ao longo da história, para além de um local de oração, o verdadeiro centro da aldeia.

Segundo a tradição oral, terá cerca de seiscentos anos e à data da sua construção situava-se no cimo da aldeia, que entretanto se foi expandido pela encosta. Diz-se, também, que juntamente com a capela do Sobral, é um das mais antigas da Freguesia, para além, naturalmente, das capelas da sede da Freguesia

Ainda segundo a mesma tradição oral, a imagem de São Pedro, feita em Pedra, já existia antes da construção da capela, sendo nesses tempos guardada na casa dos habitantes da aldeia.

Independentemente das convicções religiosas de cada um de nós, consideramos que a capela é o património histórico mais relevante da aldeia e por isso ao longo das gerações houve sempre a preocupação de manter a dignidade deste espaço, através de obras de conservação e manutenção, que apesar da aplicação de novos materiais de construção, ao nível do exterior, manteve intacto o património essencial.

A necessidade de proceder a novas obras, associada às preocupações actualmente dominantes na aldeia, no sentido da reconstrução tradicional levou, e em nosso entender bem, a uma importante valorização do imóvel, que estamos certo orgulharia os nossos antepassados responsáveis pela construção original.

Conforme as fotos seguintes revelam, estas obras consistiram na colocação de tectos e porta em madeira, nova iluminação; telhado em lousa, escadaria em xisto e colocação lambrim exterior em xisto, colocando a capela do Soito como uma das mais preservadas da nossa zona que, de uma forma geral, tem “tratado mal” este tipo de património.

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António Duarte

quinta-feira, 13 de maio de 2010

História da Comissão de Melhoramentos do Soito

Sócios fundadores e obtenção de Alvará


Na sequência do texto aqui publicado no passado 2010/04/28, onde se dava a conhecer uma “carta aberta” publicada em 1953 na imprensa regional, pela então designada de “Pro-Comissão de Melhoramentos do Soito, que anunciava a criação para breve da CM do Soito, iremos, à medida que nos for sendo possível, publicar mais alguns dados sobre a sua constituição efectiva e sobre a sua história.

Antes de mais devo dizer que é muito reduzido o espólio que dispomos, não existindo, por exemplo, no arquivo oficial, quaisquer fotos de acontecimento relevantes, que muito nos ajudariam nesta tarefa. Ainda assim, tentaremos fazer o que nos é possível.

Conforme prometido na referida “carta aberta” já referida e publicada neste BLOG, a Comissão de Melhoramentos do Soito foi oficialmente constituída em 12 de Outubro de 1954, com a emissão do Alvará nº 52/1954,  pelo Governador Civil de Lisboa.

Os sócios fundadores, cujos nomes aqui evocamos, foram:



Abel Nunes de Almeida Junior

Eduardo Almeida Gaspar

Fernando Duarte Costa

José Nunes de Almeida

Urbano Marques

Ernesto Santos

António Nascimento Duarte

José Martins Gomes

José Maria André

António de Almeida

Marcelino Antunes de Almeida

Ernesto Braz

José de Almeida Antunes

Américo Martins Brás

Guilherme Braz

Alfredo Marques de Almeida

José de Barros Tojal

Alberto Costa

José Lebre Ferreira Jorge


Neste momento apenas José Nunes de Almeida e Eduardo Almeida Gaspar, estão ainda entre nós. O primeiro é ainda uma das pessoas mais dinâmicas do Soito e desde sempre tem ocupado cargos nos corpos sociais da CMS, sendo actualmente o presidente do Conselho Fiscal. O segundo, apesar da idade avançada, continua a ser um grande amigo do Soito.

No artigo segundo dos respectivos Estatutos que a seguir transcrevemos, enumeram-se das finalidades da CM do Soito:

“Artº2 – As suas finalidades são:


a) O estreitamento de relações entre os sócios procurando estabelecer entre eles maior solidariedade;


b) Concorrer por todos os meios ao seu alcance para o melhoramento e engrandecimento da povoação do Soito, actuando sempre de acordo e em colaboração com os respectivos corpos administrativos;


c) Praticar, de um modo geral, todos os actos que tenham como finalidade o engrandecimento da associação e o seu prestígio.”

Apesar da mudança substancial da realidade, devemos reconhecer as finalidades da criação desta associação ainda se matem actuais.

António Duarte

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Boas notícias para o nosso Concelho

GÓIS - MAIOR INVESTIMENTO DOS “ÚLTIMOS SÉCULOS” A CAMINHO


Envelhecer com qualidade

Health Resort Nature Góis. O objectivo é ambicioso: saúde e bem-estar num único local. As obras começam já este ano. Em Junho de 2012 prevê-se a inauguração do hotel e spa. O resto fica para 2015.

Por enquanto, é só um projecto. No futuro, será uma realidade com 86 apartamentos, 34 vivendas autónomas, residências medicalizadas. Sem esquecer o jardim infantil, a creche e até um heliporto. Nome: Health Resort Nature Góis, a nascer na Quinta do Baião.

Turismo, saúde e bem-estar. O desenvolvimento está a chegar ao concelho de Góis. O complexo de quatro estrelas – que será amigo do ambiente – vai criar perto de 500 novos postos de trabalho directos e indirectos.

O Nature Góis estará preparado para receber até 460 pessoas com uma vida activa e independente, mais 300 utentes que necessitem de cuidados permanentes.



“Um espaço onde é possível envelhecer com qualidade de vida”. Palavras de Alberto Mateus, o director-geral da NatureSanus Turismo, SA, a empresa responsável pelo projecto.

As ideias estão formuladas, o projecto está estruturado, já tem o aval da autarquia para avançar e foi ontem apresentado publicamente. Com um invetimento na casa dos 50 milhões de euros, dentro de cinco anos estará de pé aquele que já é considerado o “maior investimento dos últimos séculos no concelho”, garante a autarca de Góis, Lurdes Castanheira.

Está a nascer “ uma oportunidade única a nível do distrito”. O governador civil de Coimbra, Henrique Fernandes, não duvida que, para além de Góis, “outros concelhos, e até Coimbra” vão ser beneficiados.

In: http://www.asbeiras.pt/?area=coimbra&numero=82710&ed=07052010.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Tradições do Milho no Soito


Como em todas as aldeias da nossa zona, o milho era o cereal predominante, cuja sementeira ocorria entre Março e Maio e a colheita entre Setembro e Outubro, sendo que estas datas estavam relacionadas com a natureza das terras, em que as de sequeiro eram, naturalmente, aquelas em que as sementeiras e as colheitas ocorriam mais cedo ( que produziam o milho temporão), ao passo que os lameiros, eram aquelas em que as sementeiras e colheitas corriam mais tarde (que produziam o milho mais serôdio).


Após a colheita, a retirada das “capas” que cobriam as espigas era feita na “escapelada”, que nalgumas zonas do país se designa de “desfolhada”, trabalho este que era efectuado de forma colectiva , à semelhança do que ocorria com a “debulha”. Num dia “escapelava-se” ou “debulhava-se” o milho de um vizinho, noutro dia o do outro e por aí fora.

Na ausência de máquinas (só mais tarde alguns agricultores mais abastados possuíam pequenas debulhadoras), a debulha tinha duas partes distintas: na primeira o milho era colocado num monte e “malhado” com paus duros de azinho e outras madeiras da zona, a fim de que por essa forma fossem extraídos a maior parte dos grãos. Este trabalho era sobretudo feito por homens. Após esta fase era necessário passar espiga a espiga a fim de retirar os grãos que não tinham sido extraídos com a “malhada”.

O trabalho colectivo custava menos e era mais animado, juntando novos e velhos, havia cantorias, contavam-se anedotas e histórias de namoriscos ou o desvendar de alguns segredos, por vezes inconvenientes.

Nas aldeias escondidas na serra, sem luz eléctrica e actividades de divertimento, estes momentos seriam sem dúvida dos mais desejados pelos mais jovens, para alguns encontros tolerados, uns cruzar de pernas ou mesmo uns beijos no escuro quando, por qualquer motivo se apagavam as ténues luzes de azeite ou petróleo, então utilizadas.

O aparecimento de espigas de milho de cor rara, entre o azul e o roxo, que na zona designamos de “xi-coração”, mas que noutras zonas é também designado de “milho-rei”, era também uma oportunidade para brincadeiras entre os participantes nas debulhas, muitas das vezes aproveitada para proporcionar a troca de beijos e outras carícias entre rapazes e raparigas.




Debulhado o milho, era necessário levantá-lo ao vento a fim de eliminar as impurezas, sendo posteriormente estendido, ao sol, durante vários dias, em mantas de farrapos e “toldos”, a fim de obter uma secagem adequada à conservação e aquisição da dureza própria para o processo de moagem.

Após a secagem, o milho era guardado em arcas de madeira até à colheita seguinte, de onde ia sendo retirado à medida das necessidades para o fabrico de farinha ou para a alimentação dos animais.

António Duarte

sábado, 1 de maio de 2010

Recantos do Soito - Fonte - Velha

Até ao início dos anos 50 do século passado, data em que o sistema de água canalizada foi construído, este seria sem dúvida um dos sítios mais movimentados da aldeia, que então contava com cerca de uma centena de habitantes.


Com água abundante e muito boa e localizada num sítio muito aprazível, a “fonte-velha” continuou e continua a ser para todos nós um ponto de encontro, sobretudo quando o calor aperta e este precioso líquido é o melhor remédio para a sede.

A sua importância foi de novo posta em relevo, quando há cerca de 5 anos e em virtude do incêndio junto à aldeia, a água da rede pública ficou imprópria para consumo.

Há cerca de nove anos e após um estado de grande abandono, a Comissão de Melhoramentos do Soito, então reactivada após cerca de 20 anos de letargia, decidiu requalificar aquele espaço, devolvendo-lhe alguma dignidade.

Entretanto, durante o ano de 2008, considerámos essencial melhorar os acessos que apresentavam algum perigo, tendo em conta a idade avançada de boa parte das pessoas que a utilizam, sendo também essencial fazer um reaproveitamento das águas que face a alguns invernos relativamente secos dos últimos anos, começavam a escassear.

Era também oportunidade de corrigir alguns erros “arquitectónicos”, então cometidos pelo empreiteiro e por à vista a nascente, tal como acontecia na sua versão original.

A imagem actual da fonte velha é mostrada pelas fotos seguintes: