segunda-feira, 21 de junho de 2010

Tradições do Soito - Apanha da azeitona / confecção do azeite

O soito era uma terra com muita azeitona, que era apanhada durante várias semanas, entre Novembro e Janeiro, sendo acondicionada nas lojas das habitações e nalguns casos em tulhas junto ao lagar e conservada com sal.

Já mais próximo de fazer o azeite a azeitona era transportada às costas ou em carros de bois (na aldeia havia entre 1 e 2 juntas de bois) para o lagar da “ponte de ceiroco”, na Ribeira de Carrimá, que servia a aldeia do Soito, Carrimá, Boiças e Vale Pardieiro.

Cada proprietário marcava o seu dia ou dias para fazer o azeite, dependendo da quantidade de azeitona que possuía. No dia de fazer o azeite teria de fornecer lenha para a fornalha do lagar e comida para os lagareiros que, na maioria das vezes era feita na fornalha do lagar, sendo daqui originário o famoso prato de bacalhau à lagareiro, o qual, tal como as batatas “a murro”, era assado na brasa e temperado com o azeite acabado de fazer.

Os lagareiros, mestre e moço, trabalhavam dia e noite de forma contínua (com alguns intervalos de descanso enquanto o moinho moía as azeitonas e a prensa ia espremendo as que tinham sido moídas anteriormente), sendo na maioria das vezes acompanhados durante a noite pelos donos da azeitona, que também ali pernoitavam.

Após o processo de moagem das azeitonas, a massa resultante era colocada em “ceiras” que eram depositadas umas sobre as outras na zona adequada à prensagem. Após este processo procedia-se ao accionamento da prensa, rodando um fuso com uma pedra de grandes dimensões acoplada na base e que na parte superior se encontrava enroscado numa “vara”, constituída por um enorme tronco de sobreiro, suportado no outro extremo por um eixo na parede do edifício do lagar.

O produto que escorria da prensa incluía o azeite e o “azilabre” (uma mistura de água e dos outros resíduos da azeitona), ia parar à “tarefa”, que era uma espécie de pote profundo, composto por duas partes, a parte inferior para onde ia a água e a parte superior onde ficava o azeite, por ser substancialmente mais leve (ainda hoje se diz que a verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima).

A perícia do mestre lagareiro consistia em abrir uma torneira na parte inferior da “tarefa”, de forma a mandar fora o azilabre e manter o azeite. Este trabalho exigia muita perícia, mexendo a tarefa com uma fina vara de madeira, para saber exactamente onde terminava o azilabre e começava o azeite. Por vezes aconteciam pequenos acidentes e lá ia uma parte do azeite para a ribeira.

Para além de fornecer a comida aos lagareiros e a lenha para as caldeiras que se destinavam a aquecer a água para caldear (a fim de obter mais azeite e após uma primeira prensagem, as ceiras eram retiradas e caldeadas com água quente, sendo de novo colocadas na prensa para serem espremidas de novo), também o trabalho dos lagareiros e o pagamento ao dono do lagar eram feitos do próprio azeite obtido, este último pagamento designava-se de “poia”. No lagar havia também uma talha para onde todos davam uma pequena quantia de azeite para o “santíssimo”, inicialmente destinado à iluminação da igreja do Colmeal e posterior com a evolução para as velas e luz eléctrica, destinado a ser vendido e a angariar fundos para a mesma igreja.

Aquela talha (pequeno pote), integra hoje o espaço museológico do Soito, por doação do actual proprietário do lagar, que funcionou até há cerca de 6 anos atrás.

O azeite era transportado para a aldeia em bilhas de lata ou em odres (recipiente feito em pele de cabra), sendo então guardado em potes de barro.

Para além do tempero, o azeite, a par da banha de porco e naturalmente do sal, era também usado para conservar os alimentos durante o ano inteiro (sobretudo o queijo e algumas partes do porco), uma vez que o Soito só teve luz eléctrica a partir de 1979.

António Duarte

sábado, 12 de junho de 2010

Memórias do Soito e do Colmeal - Espólio de António Marques de Almeida (Comeal)

Na sequência do texto e fotos que aqui publicámos no passado dia 2010/06/05, sobre alguns aspectos da vida de Adelino Brás de Almeida, nascido no Soito em 1879 e que no Colmeal teve estabelecimento de mercearias, vinhos e miudezas e oficina de sapateiro, publicamos agora mais algumas fotos de deste nosso conterrâneo e respectiva família, esperando que estas publicações sejam um estímulo para que alguns dos nossos “leitores” que disponham de material idêntico o disponibilizem, também,  para publicação.

É que a História do Soito, bem como a das restantes aldeias da nossa zona faz-se, sobretudo, pela história das pessoas que ali nascerem e/ou viveram e que, aprendendo com a dureza da vida nas nossas terras, se tornaram seres humanos de grande capacidade e iniciativa, capazes de vencer em qualquer em qualquer parte do mundo para onde se deslocaram, sem nunca esquecerem o seu torrão natal.


Guia de inspecção militar de António Brás de Almeida


Livro de registo do estabelecimento com anotações do direito às água de rega nas terras da "quinta"





Fotos de família: da esquerda para a direita – Virgínia e netos (os 3 irmãos mais velhos de António Marques de Almeida); Adelino e Virgínia; filha e três netos.



Batizado


Ainda com base na informação que nos foi cedida por António Marques de Almeida, o próximo texto a publicar falará um pouco de António Martins Mendes, natural do Soito e que também teve uma importante participação no regionalismo, através da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.

António Duarte

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Saúde do Concelho de Góis na Casa Regional

Intervenções de profissionais e da Presidente da Câmara


A Casa do Concelho de Góis, através do seu Conselho Regional, ocupou-se no passado sábado do "estado da saúde no concelho", convidando pessoas conhecedoras do assunto, como o Dr. Figueiredo Fernandes, presidente do Conselho Clínico do Agrupamento de Centro de Saúde do Pinhal Interior Norte (Lousã); Dr. Avelino Pedroso, vogal do mesmo Conselho Clínico; Dr. Manuel Gama, clínico geral no sector privado no Concelho de Góis; e a Drª Maria de Lurdes Castanheira, presidente da Câmara Municipal de Góis.

A Casa estava razoavelmente cheia, apesar de àquela mesma hora, ali ao lado, no Marquês de Pombal e Avenida da Liberdade, uma multidão de muitos milhares de pessoas se preparassem para a manifestação organizada pela C.G.T.P contra as políticas do governo, designadamente subida de impostos. Mas os regionalistas interessam-se sobretudo por aquilo que às suas terras diz respeito e pela assistência à saúde nessa região do interior do País, que sempre foi uma preocupação dos rurais.

Constituída a mesa pelos referidos convidados e ainda pelo vice-presidente do Conselho Regional, Dr. Fernando Cunha, o presidente do mesmo Conselho Regional da Casa, Dr. Luís Martins, saudou e agradeceu a presença de convidados e explicou as razões e oportunidade aquele encontro e aquilo que lhe estava inerente.

Interveio em primeiro lugar, o Dr. Figueiredo Fernandes, que começou por agradecer a presença da presidente da Câmara de Góis, cuja colaboração é muito importante para os profissionais de saúde. Analisou a importância do médico de família (ter um médico desde que se nasce até que se morre), e fez uma análise o mais completa possível sobre a saúde e a medicina na área do Pinhal Interior Norte, que abrange oito Concelhos da Beira Serra, em que estão incluídos os da nossa antiga comarca. Enalteceu o que se tem conseguido após o 25 de Abril na área do serviço nacional de família com a participação do poder local.

O Dr. Avelino Pedroso, vice-presidente da Câmara de Arganil, ocupou-se de aspectos sociais e administrativos naquela área dos 8 concelhos, citando números e percentagens, salientando a baixa percentagem de natalidade que se tem verificado e um grande índice de envelhecimento que exige acrescidos cuidados de saúde. Citou diversos indicadores de saúde e recordou os avanços que se tem conseguido ao evitar mais mortalidade infantil, havendo todavia um longo caminho a percorrer no que se refere ao tratamento e utilização de esgotos e também no abastecimento de água. Citou números de - profissionais de saúde e unidades de internamento. De seguida interveio o Dr. Manuel Gama, que sublinhou que a medicina particular, que tem exercido nos concelhos de Góis e de Arganil, ainda é cara para os utentes que têm de pagar os exames necessários, acrescentando que nos devemos voltar mais para a acção da saúde preventiva.

A presidente da Câmara Municipal de Góis, Dr.ª Maria de Lurdes Castanheira, felicitou o Conselho Regional da Casa de Góis por esta iniciativa e saudou os presentes, designadamente os representantes das colectividades regionalistas, sempre interessados pelas coisas das suas terras e especialmente no que se refere à assistência na saúde. Enalteceu as intervenções dos médicos intervenientes e salientou o facto de termos em Góis, o Dr. Manuel Gama como médico residente.

Afirmou que a Câmara está sempre preocupada com a assistência à saúde no Concelho, aludindo à situação na área de cada uma das cinco freguesias.

O Dr. Figueiredo Fernandes manifestou a sua simpatia pela acção da presidente da Câmara de Góis e pelas palavras dirigidas ao Dr. Manuel Gama. Realçando os riscos e urgência quando se trata, por exemplo, de um A.V.C, e da importância que nisso têm as acessibilidades, citando a reconstrução da estrada 342, que é para nós mais urgente que o TGV". Concluiu apontando o avanço que se tem conseguido na diminuição das taxas de mortalidade infantil, assim como na mortalidade materna.

O Dr. Fernando Cunha, farmacêutico, fez algumas oportunas considerações sobre medicamentos, que também irão ficar mais caros com a subida dos impostos.

O tema mereceu o maior interesse dos presentes, havendo um período de perguntas, designadamente por parte do Dr. Álvaro Henriques de Almeida (Mega Cimeira), João Reis (Cortes) e Victor Marques (AIvares), a freguesia mais distante de Góis e muito ligada a Pedrogão Grande, e ainda de Victor Manuel Nogueira Dias (Vító)." que respondeu o Dr. Figueiredo Fernandes.

O presidente da direcção da Casa de Góis, José Dias, agradeceu por fim aos intervenientes neste debate, que despertou muito interesse e convidou-os para um beberete no Bar da Casa.



António Lopes Machado

in Jornal de Arganil, 3/06/2010

sábado, 5 de junho de 2010

Memórias do Soito e da Freguesia do Colmeal – contributos de António Marques de Almeida

Quando iniciámos este BLOG solicitámos aos nossos “leitores” para nos enviarem fotos de pessoas Soito ou de alguma forma relacionadas com a aldeia, histórias, notícias ou outros elementos importantes relacionados com aldeia e/ou com o regionalismo.

Infelizmente e até ao momento, apenas tivemos “feedback” de uma pessoa que não sendo do Soito, tem também origens na nossa aldeia e é sem dúvida uma das pessoas que conheço, com ligações à nossa Freguesia, que mais preserva a memória dos seus antepassados e ao mesmo tempo aspectos importantes do passado colectivo das nossas aldeias.

O espólio de documentação e de fotos que dispõe, muito do qual já publicado no BLOG da União Progressiva da Freguesia do Colmeal (http://upfc-colmeal-gois.blogspot.com/) e no seu BLOG pessoal (http://sol.sapo.pt/blogs/guayaes), bem como a divulgação da nossa Freguesia na sua página no FACEBOOK, são disso prova irrefutável.

António Marques de Almeida, filho de naturais do Colmeal, é de facto um cidadão do mundo, fruto da diáspora portuguesa que levou também muitos dos nossos conterrâneos para fora do país em busca de melhores condições de vida. Nasceu na Venezuela, onde viveu até boa parte da sua vida, tendo-se posteriormente fixado em Lisboa, onde actualmente vive.

Visita com frequência o Colmeal e as outras aldeias da Freguesia, sempre acompanhado da sua inseparável máquina fotográfica.

A imagem que tenho do António é de uma pessoa que busca incessantemente o conhecimento das suas origens e da cultura das nossas terras, divulgando-a através dos meios electrónicos hoje disponíveis, para além de quaisquer rivalidades entre aldeias, até porque, no fundo, toda a Freguesia do Colmeal tem uma cultura comum e também, em termos populacionais, não passa de uma pequena aldeia.

Para esta perspectiva de olhar a Freguesia do Colmeal como um todo, terá contribuído também, certamente, o facto do seu avô materno Adelino Brás de Almeida ser natural do Soito, e a sua avó materna Virgínia de Jesus, natural de Ádela.

Fazendo jus ao que acabámos de referir o António Marques de Almeida, forneceu-nos material importante que para publicação neste BLOG (fotos e outra documentação relacionadas com pessoas do Soito), bem como algum do espólio do seu avô Adelino Brás de Almeida, que ainda que de forma provisória já se encontra exposto no Espaço Museológico do Soito.

Nesta primeira publicação do material que fez o favor de nos enviar, falemos então de Adelino Brás de Almeida.


Adelino e Virgínia

Adelino Brás de Almeida era natural do Soito, onde nasceu em 3 de Fevereiro de 1879, filho de António Domingos e Maria Isabel. Esteve emigrado nos Estados Unidos da América e regressou a Portugal em 1907, casou com uma senhora do Colmeal, de nome Maria José.

Após ter ficado viúvo da primeira mulher, casou com Virgínia de Jesus de Almeida em 1924, tendo tido duas filhas, uma de nome Virgínia de Almeida, mãe do António que nos forneceu esta informação e outra de nome Beatriz que faleceu ainda jovem.

Tinha a profissão de sapateiro e no Colmeal, junto à antiga capela de São Nicolau (actualmente Centro Paroquial), dispunha de um estabelecimento polivalente – de um lado um estabelecimento de mercearias, vinhos e miudezas e do outro a oficina de sapateiro.

A sua actividade de sapateiro era aliás referenciada no Anuário Comercial do Concelho de Góis, de 1910, na parte respeitante à Freguesia do Colmeal (publicado no BLOG da UPFC em 2009/07/21 - in http:museudoesporao.blogspot.com).



Segundo o neto António, Adelino Brás de Almeida deslocava-se numa égua pela freguesia e pelos outros lugares da zona, a fim de levar e receber o calçado para consertar ou tirar as medidas para confeccionar sapatos e botas à medida dos fregueses. A numeração do calçado correspondia ao número de pontos utilizados na sua feitura.

Apesar de lamentar o facto de seus pais não terem valorizado o espólio deixado pelo avô, António Marques de Almeida, encontrou ainda um conjunto importante de objectos, sobretudo ligados à profissão de sapateiro, que depois de devidamente anotados ofereceu ao Espaço Museológico do Soito, onde estão expostos ainda de forma provisória.

De seguida publicam-se algumas fotos dos mesmos objectos que também nos foram remetidas pelo António Marques de Almeida.







António Duarte


Uma Jornada às memórias de Góis - Visita ao Espaço Museológico do Soito em 12 de Julho

No há património sem memória. A memória perde-se no tempo se não a preservamos. Os espaços museológicos são locais privilegiados para preservar as memórias, o património das comunidades.


Góis é um concelho com uma riqueza inquestionável, que transparece nas sensações e cores patentes na sua biodiversidade paisagística; nos saberes e tradições que resistem à dureza do tempo; no património de cariz histórico, arqueológico, arquitectónico e etnográfico que engrandece a sua cultura.

Nos últimos anos têm sido criados, muitas vezes por iniciativa de associações ou outras agremiações concelhias, um pouco por todo o concelho, núcleos museológicos com o mote comum de preservar e divulgar o vasto, rico e, grande parte das vezes desconhecido património cultural concelhio.

Com intuito de divulgar e dar a conhecer a riqueza cultural que estes núcleos museológicos encerram vai a Câmara Municipal de Góis promover, no dia 12 de Junho, uma visita

aos espaços museológicos do Concelho de Góis, no período entre as 09h30 e as 15h30, devendo os interessados contactar o Posto de Turismo de Góis para efeitos de inscrição e outras informações.

Esta iniciativa contempla a visita à Colecção Museológica de Góis, Núcleo Museológico da Cabreira, Núcleo Museológico do Soito, Núcleo Museológico do Esporão, Museu Paroquial de Arte Sacra e Casa do Ferreiro.

Gabinete de Imprensa CMG