A pastorícia, a par da agricultura, sempre foi uma das actividades predominantes da nossa zona, sobretudo até ao final dos anos 60 do século passado, quando nas aldeias serranas se acelerou ainda mais o processo de desertificação já iniciado nas décadas anteriores.
Dentro dos vários produtos que associados a esta actividade (p.e. extracção de lã, venda das crias, consumo de carne, produção de estrume para as terras), destaca-se a produção de queijo, que salvo raras excepções era feito da mistura de leite de cabras e ovelhas, sendo que o primeiro era predominante, não só porque as cabras produzem maiores quantidades de leite, mas também porque a exiguidade dos terrenos aráveis e os respectivos declives, eram mais propícios a estes animais do que às ovelhas.
O fabrico ao queijo ocorria, predominantemente entre o mês de Fevereiro e mês de Julho, uma vez que era tradição a maioria das cabras e ovelhas parirem no final do ano / inicio do ano seguinte, após um período de gestação de 5 meses. Naturalmente que este período era o mais escolhido pelos donos do gado, a fim de que o período de crescimento das crias / produção de leite, se ajustasse ao período de maiores e melhores pastagens, que se verificava sobretudo a partir de Fevereiro do ano seguinte.
A extracção de leite iniciava-se 2/3 semanas após o nascimento das crias, que assim ficavam privadas de parte do seu alimento destinada a alimentar os seus donos, de forma directa, ou indirecta através do fabrico de queijo. Para o efeito as crias, cabritos e cordeiros, eram fechadas, sobretudo durante a noite, num compartimento específico dento do curral, designado de “prisco”
Pela manhã, quando as cabras e ovelhas já estavam de amojo cheio, procedia-se à ordenha, por norma para um recipiente de lata (a lata do leite), libertando-se então as crias que durante boa parte do dia tinham direito à totalidade do leite para a sua alimentação. Porém e logo que as crias se iniciavam na alimentação sólida, o período de clausura do “prisco” tendia a aumentar, a fim de que os respectivos donos pudessem extrair mais leite.
Este leite, após ser coado, a fim de filtrar algumas impurezas adquiridas na fase da ordenha, sobretudo pêlos dos animais, era adicionado de uma determinada porção de água, após infusão a frio da flor do cardo, planta existente na zona com características coagulantes, a fim de coalhar o leite.
Sobretudo nos dias de mais baixas temperaturas, o leite era colocado junto à lareira ou ao fogão de lenha, a fim de obter a temperatura necessária para ficar bem coalhado, ou seja com uma textura adequada ao fabrico do queijo. O tempo de coagulação do leite dependia da quantidade de cardo e da temperatura a que estava exposto, numa relação directa. Mas se bem me lembro variava entre 1 e 2 horas.
Após estar suficientemente coalhado fazia-se o queijo, sendo que esta era uma tarefa doméstica e por isso executada maioritariamente pelas mulheres. O processo de fabrico exigia um prato, sobre o qual se colocava um acincho (forma redonda aberta dos dois lados de diversos tamanhos conforme o tamanho do queijo pretendido e/ou a quantidade de leite existe) e as mãos bem lavadas.
A coalhada era colocada dentro do acincho em pequenas porções e ia sendo espremida pelas mãos, à medida que uma camada estava suficientemente espremida colocava-se a outra, virando-se o acincho do outro lado, até o queijo estar completo. O processo de prensagem assim efectuado é fundamental para que o queijo atinja a textura e o sabor desejados.
Concluído o queijo, era colocada a quantidade de sal desejada, ficando o mesmo dentro do acincho até ao dia seguinte, sendo então consumido fresco ou colocado numa queijeira (suporte em madeira), a fim de adquirir a secagem desejada ou de acordo com as necessidades de consumo mais ou menos imediatas.
Uma vez que a época do queijo terminava nos primeiros meses de Verão, o queijo para o resto do ano era sujeito a um processo de secagem mais longo, sendo posteriormente conservado em azeite dentro de talhas de barro.
O soro obtido após a extracção da coalhada para o fabrico do queijo, que na nossa zona se chamava “almece”, era aproveitado e comido com migas de broa, sobretudo pelas famílias mais carenciadas.
António Duarte
Mostrar mensagens com a etiqueta COLMEAL. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta COLMEAL. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Soito - uma aldeia com entradas convidativas
Entradas do Soito
De certa forma podemos dizer que a entrada de uma aldeia nos diz um pouco daquilo que ela será por dentro, o que nem sempre é verdade, face à existência de condicionantes específicas, como é o caso das construções particulares, por vezes desinseridas da traça arquitectónica da zona.
De qualquer modo e tendo como ponto de partida as referidas limitações, muito poderemos fazer para melhorar as entradas / saídas das nossas aldeias, assumindo aqui o tal papel de “regionalistas à moda antiga”, até porque dificilmente as nossas autarquias têm condições para embelezar, adequadamente, um multiplicidade de aldeias espalhadas pela serra, concentrando, por norma, esse esforço, nas sedes Concelhias e nas sedes das freguesias mais importantes.
É neste sentido que, estando a aldeia do Soito envolvida num processo de grande transformação ao nível da reconstrução tradicional, ao nível colectivo e individual e da valorização do património colectivo, nos vimos preocupando, também, com o seu aspecto exterior, a fim de que apresente um aspecto atractivo para quem nos visita, mas também para todos os que passam na estrada municipal Góis / Fajão, que assim ficarão com imagem de uma aldeia cuidada, que convida a uma visita ao seu interior.
Nesta linha de raciocínio, iniciámos, há cerca de 5 anos um processo de melhoria das bermas da referida estrada municipal, com a plantação de várias árvores na direcção Soito-Fajão-Malhada (castanheiros, cerejeiras e figueiras), ao mesmo tempo que na Direcção Soito-Colmeal-Góis, recorremos a uma empresa de jardinagem então existente na zona, que ali plantou várias espécies de arbustos e plantas, que dão uma beleza ímpar às referidas bermas, especialmente na Primavera e no Verão.
De referir, também, que a manutenção destes espaços, que em breve serão ampliados, implica a limpeza das bermas (este ano numa maior extensão por parte da Junta de Freguesia do Colmeal), bem como a rega durante o Verão, o que actualmente é feito por um sistema de rega gota a gota, accionado automaticamente, cujos custos iniciais são largamente compensados pelos benefícios futuros.
Por fim não podemos deixar de referir que o actual executivo da Junta de Freguesia do Colmeal procedeu, também, à plantação de várias cerejeiras nas entradas do Soito, bem como noutras aldeias, garantindo a sua manutenção, o que nos parece ser um aspecto bastante positivo para a atractividade das nossas aldeias, sendo também de salientar
Para ilustrar o que acabámos de referir, vejamos as fotos seguintes feitas há cerca de 2 semanas.
António Duarte
Etiquetas:
ALDEIA,
COIMBRA,
COLMEAL,
CONVIDATIVA,
ENTRADAS,
GÓIS,
PATRIMÓNIO,
PRESERVADA,
SOITO
domingo, 11 de julho de 2010
Memórias do Soito e do Colmeal - espólio de António Marques de Almeida
António Martins Mendes e a Ponte sobre o Ribeiro do Soito
António Martins Mendes nasceu no Soito, casou no Colmeal com Ludovina da Conceição Ferreira Mendes e teve quatro filhos: Maria Amélia, Américo, Ângela e João Mendes, todos já falecidos, à excepção deste último, actualmente com cerca de 80 anos.
Teve vários netos entre os quais a Maria da Conceição Mendes das Neves, filha de Maria Amélia e actual esposa de António Marques de Almeida.
Esteve ligado desde início à UPFC, integrando os seus órgãos sociais, sendo que no período de 1993/1934, fazia parte da Direcção constituída pelos seguintes elementos “Manuel Nunes de Almeida, Albano Gonçalves de Almeida, Francisco Luís, António Domingos Neves, António Martins Mendes, José Augusto Elias de Almeida e António Nunes Major” (in Boletim “O Colmeal” Nº 124, de Fevereiro de 1974, republicado no dia 10 de Dezembro de 2009 em http://upfc-colmeal-gois.blogspot.com).
No mesmo texto que acabámos de citar referia-se que, em 14-4-1933 “estuda-se a possibilidade de construção de uma ponte em pedra sobre o ribeiro do Soito, pedindo-se à Delegação o respectivo orçamento.
Em 13-5-1933 decide-se oficiar à C. M. Góis pedindo a execução gratuita da planta desta obra, mas a resposta é negativa, por ser inteiramente impossível atender o pedido.
Em face disto, resolve a Direcção construir-se a ponte mesmo sem planta, encarregando-se a Delegação de elaborar o respectivo caderno de encargos da obra, cujo orçamento era de 3.000$00.
….
Em 11-1-1934, a Delegação da UPFC notifica que a obra da ponte sobre o ribeiro do Soito está concluída, mas só em 12-7-34 se oficia à C. M: Góis fazendo a sua entrega, depois de se ter completado o pagamento de 1.100$00 à Delegação (5-4-34) e 60$00 à Junta de Freguesia”.
Assim sendo, António Domingos Mendes, enquanto membro da Direcção da UPFC esteve ligado à primeira grande obra projectada e construída por esta e que foi a ponte em pedra sobre o ribeiro do Soito, substituindo a antiga ponte em madeira existente naquele local.
Tratava-se de uma importante obra que permitia a ligação de boa parte das aldeias à sede da Freguesia (Soito, Malhada, Carrimá, Foz-da-Cova e Quinta de Belide), bem como a passagem do “trânsito” com a vizinha Freguesia de Fajão.
Embora tenhamos informação suficiente para, através desta forma, prestarmos uma justa homenagem a este ilustre conterrâneo, que faleceu em 1957, a sua participação activa no regionalismo, através da UPFC, e especialmente a sua ligação à construção da ponte do Soito, são motivos para a publicação deste singelo texto.
Por último refira-se que esta ponte foi posteriormente aproveitada, após alargamento e reforço de estruturas, para servir a actual estrada que passa no mesmo local, embora se deva dizer que as ditas obras tornando-a adaptada às necessidades actuais (embora um pouco estreita), descaracterizaram a sua beleza inicial.
Seguem-se algumas fotos da referida ponte, na sua fase inicial e após a sua adaptação ao trânsito rodoviário.
Ponte do Soito após obras de adaptação ao trânsito rodoviário
António Duarte
Etiquetas:
COLMEAL,
MEMÓRIAS,
PERSONALIDADES,
PONTE DO SOITO,
REGIONALISMO,
SOITO,
UPFC
sábado, 12 de junho de 2010
Memórias do Soito e do Colmeal - Espólio de António Marques de Almeida (Comeal)
Na sequência do texto e fotos que aqui publicámos no passado dia 2010/06/05, sobre alguns aspectos da vida de Adelino Brás de Almeida, nascido no Soito em 1879 e que no Colmeal teve estabelecimento de mercearias, vinhos e miudezas e oficina de sapateiro, publicamos agora mais algumas fotos de deste nosso conterrâneo e respectiva família, esperando que estas publicações sejam um estímulo para que alguns dos nossos “leitores” que disponham de material idêntico o disponibilizem, também, para publicação.
É que a História do Soito, bem como a das restantes aldeias da nossa zona faz-se, sobretudo, pela história das pessoas que ali nascerem e/ou viveram e que, aprendendo com a dureza da vida nas nossas terras, se tornaram seres humanos de grande capacidade e iniciativa, capazes de vencer em qualquer em qualquer parte do mundo para onde se deslocaram, sem nunca esquecerem o seu torrão natal.
Guia de inspecção militar de António Brás de Almeida
Livro de registo do estabelecimento com anotações do direito às água de rega nas terras da "quinta"
Fotos de família: da esquerda para a direita – Virgínia e netos (os 3 irmãos mais velhos de António Marques de Almeida); Adelino e Virgínia; filha e três netos.
Batizado
Ainda com base na informação que nos foi cedida por António Marques de Almeida, o próximo texto a publicar falará um pouco de António Martins Mendes, natural do Soito e que também teve uma importante participação no regionalismo, através da União Progressiva da Freguesia do Colmeal.
António Duarte
Etiquetas:
COLMEAL,
GÓIS,
PATRIMÓNIO,
SOITO,
TRADIÇÕES
sábado, 5 de junho de 2010
Memórias do Soito e da Freguesia do Colmeal – contributos de António Marques de Almeida
Quando iniciámos este BLOG solicitámos aos nossos “leitores” para nos enviarem fotos de pessoas Soito ou de alguma forma relacionadas com a aldeia, histórias, notícias ou outros elementos importantes relacionados com aldeia e/ou com o regionalismo.
Infelizmente e até ao momento, apenas tivemos “feedback” de uma pessoa que não sendo do Soito, tem também origens na nossa aldeia e é sem dúvida uma das pessoas que conheço, com ligações à nossa Freguesia, que mais preserva a memória dos seus antepassados e ao mesmo tempo aspectos importantes do passado colectivo das nossas aldeias.
O espólio de documentação e de fotos que dispõe, muito do qual já publicado no BLOG da União Progressiva da Freguesia do Colmeal (http://upfc-colmeal-gois.blogspot.com/) e no seu BLOG pessoal (http://sol.sapo.pt/blogs/guayaes), bem como a divulgação da nossa Freguesia na sua página no FACEBOOK, são disso prova irrefutável.
António Marques de Almeida, filho de naturais do Colmeal, é de facto um cidadão do mundo, fruto da diáspora portuguesa que levou também muitos dos nossos conterrâneos para fora do país em busca de melhores condições de vida. Nasceu na Venezuela, onde viveu até boa parte da sua vida, tendo-se posteriormente fixado em Lisboa, onde actualmente vive.
Visita com frequência o Colmeal e as outras aldeias da Freguesia, sempre acompanhado da sua inseparável máquina fotográfica.
A imagem que tenho do António é de uma pessoa que busca incessantemente o conhecimento das suas origens e da cultura das nossas terras, divulgando-a através dos meios electrónicos hoje disponíveis, para além de quaisquer rivalidades entre aldeias, até porque, no fundo, toda a Freguesia do Colmeal tem uma cultura comum e também, em termos populacionais, não passa de uma pequena aldeia.
Para esta perspectiva de olhar a Freguesia do Colmeal como um todo, terá contribuído também, certamente, o facto do seu avô materno Adelino Brás de Almeida ser natural do Soito, e a sua avó materna Virgínia de Jesus, natural de Ádela.
Fazendo jus ao que acabámos de referir o António Marques de Almeida, forneceu-nos material importante que para publicação neste BLOG (fotos e outra documentação relacionadas com pessoas do Soito), bem como algum do espólio do seu avô Adelino Brás de Almeida, que ainda que de forma provisória já se encontra exposto no Espaço Museológico do Soito.
Nesta primeira publicação do material que fez o favor de nos enviar, falemos então de Adelino Brás de Almeida.
Adelino e Virgínia
Adelino Brás de Almeida era natural do Soito, onde nasceu em 3 de Fevereiro de 1879, filho de António Domingos e Maria Isabel. Esteve emigrado nos Estados Unidos da América e regressou a Portugal em 1907, casou com uma senhora do Colmeal, de nome Maria José.
Após ter ficado viúvo da primeira mulher, casou com Virgínia de Jesus de Almeida em 1924, tendo tido duas filhas, uma de nome Virgínia de Almeida, mãe do António que nos forneceu esta informação e outra de nome Beatriz que faleceu ainda jovem.
Tinha a profissão de sapateiro e no Colmeal, junto à antiga capela de São Nicolau (actualmente Centro Paroquial), dispunha de um estabelecimento polivalente – de um lado um estabelecimento de mercearias, vinhos e miudezas e do outro a oficina de sapateiro.
A sua actividade de sapateiro era aliás referenciada no Anuário Comercial do Concelho de Góis, de 1910, na parte respeitante à Freguesia do Colmeal (publicado no BLOG da UPFC em 2009/07/21 - in http:museudoesporao.blogspot.com).
Segundo o neto António, Adelino Brás de Almeida deslocava-se numa égua pela freguesia e pelos outros lugares da zona, a fim de levar e receber o calçado para consertar ou tirar as medidas para confeccionar sapatos e botas à medida dos fregueses. A numeração do calçado correspondia ao número de pontos utilizados na sua feitura.
Apesar de lamentar o facto de seus pais não terem valorizado o espólio deixado pelo avô, António Marques de Almeida, encontrou ainda um conjunto importante de objectos, sobretudo ligados à profissão de sapateiro, que depois de devidamente anotados ofereceu ao Espaço Museológico do Soito, onde estão expostos ainda de forma provisória.
De seguida publicam-se algumas fotos dos mesmos objectos que também nos foram remetidas pelo António Marques de Almeida.
António Duarte
Etiquetas:
COLMEAL,
MEMÓRIAS,
PATRIMÓNIO,
SOITO
Subscrever:
Mensagens (Atom)











